Chegava às 7 pontualmente todos os dias úteis e às 9 aos sábados. Tirava o domingo para dormir até às 10, tomar café completo eregar as plantas. Morava sozinho no centro de São Paulo, de onde levava 30 minutos para chegar ao serviço - um prédio comercial de 11 andares - onde era ascensorista por registro e leitor de coração. Devorava livros e livros sentado em seu sobe-e-desce diário. Exceto por um período de 2horas de almoço, quando o movimento se tornava irritantemente intenso. De acordo com seu contrato, tinha direito a 3 intervalos de 11 minutos cada. Claro que, com o passar dos anos, fez muitos amigos ao longo do prédio e vez ou outra ouvia um convite:
"Pára aqui na volta".
"Tá, só vou deixar esse pessoal lá no 12º".
E quando voltava para o ponto de origem, para sair do elevador e botar a prosa em dia, deixava um livro em seu lugar. Era como que um código para os passageiros dizendo "calma, eu tô aqui no prédio e já volto. Fica o livro no meu lugar por hora". Ultimamente o livro que sentava no seu posto de trabalho era "Sonho de Liberdade", de capa amarela. Ironicamente, a única atribuição que não consta na sua descrição de cargo é a liberdade.
Aqui está mais uma prova sponvilliana de que desejamos o que não temos. Em outras palavras, o ascensorista sonha com liberdade e foge de repetição. O padeiro já não aguenta mais o cheiro dos sonhos recheados e o mecânico daria de tudo por esse cheiro. Oh, well, desiring what we haven´t got!