
Quando se fala em racismo, vem a imagem do sul e do norte dos Estados Unidos brigando na Guerra Civil. Ou do Barack Obama ganhando as eleições presidenciais. Ou dos bolivianos que moram perto da minha casa no Brasil. Mil coisas vêm à cabeça. Mas o que eu descobri ontem eh que o racismo não tem cor. Ele eh loiro dos olhos azuis, moreno dos olhos verdes, ele eh asiático, negro, azul, Pink moscato. Juro. O racismo vem fantasiado de todas as cores, quase difícil de ser enxergado a olho nu.
Uma garrafa de whiskey, cerveja, musica, um sing along and all na minha casa. Desde as 13h30, depois do brunch. Conversa vai, conversa vem, meu amigo Irish já estava caindo de bêbado. Dorme, acorda, bebe mais um pouco. Dorme, acorda, mais um golinho por finesse. E a gente conversando, rindo, relembrando historias de faz tempo.
O vizinho de cima passando para entrar na casa dele, o chamamos para entrar. “Hey, hey, entra ai, vamos tomar uma birita”. E eles entram - um casal lindo e querido – meio bêbados também. Uma Corona, um copo de água e mais conversa. Compraram o ape de cima há 10 meses, reformaram, querem que a gente os visite, blábláblá.
Eis que o amigo bêbado, out of the blue, lança algo do tipo: “Vocês, australianos, não sabem trabalhar”. O vizinho, meio atordoado, retruca: “Sorry, mate, can’t really understand what you are saying”. Acho que num esforço de não brigar na casa dos vizinhos, sei la. Peace all the way. “You, aussies, can’t work. Do you think you can work? You can’t work at all.” Eu, tentando mudar de assunto, achando que o amigo bêbado já tinha passado do limite 5 minutos atrás. “Listen, man, what are you saying?”. “We, Irish, built the world”.
Too much, man. Waaaaaay too much. Did you build the world? Did you? Who are you, a God of some sort? Eu fiquei muito, muito desorientada, com uma raiva que não sentia ha tempos. Queria pular no pescoço dele, bêbado imbecil. Como ele vem pro pais dos caras e fica zuando os caras na MINHA casa? Se eu tivesse uma pedra, eu tacava nele. Nunca presenciei uma cena de naked racism tão nítida e tão de perto. Me senti mal, estou me sentindo ate o presente momento.
Too much, man. Waaaaaay too much. Did you build the world? Did you? Who are you, a God of some sort? Eu fiquei muito, muito desorientada, com uma raiva que não sentia ha tempos. Queria pular no pescoço dele, bêbado imbecil. Como ele vem pro pais dos caras e fica zuando os caras na MINHA casa? Se eu tivesse uma pedra, eu tacava nele. Nunca presenciei uma cena de naked racism tão nítida e tão de perto. Me senti mal, estou me sentindo ate o presente momento.
O bêbado levantou, o aussie levantou, mas não rolou porrada-porrada. O bêbado foi para casa e eu quase morri de vergonha. Po, eu sempre tentando fazer amizades com os vizinhos e a minha primeira chance meio arruinada. Fiquei muito triste, de verdade, achei desprezível a atitude do amigo bêbado. Lembro da minha amiga japa querida que disse que os asiáticos são mais trabalhadores que o resto do mundo. I mean, it’s a LOT to say. You don’t know the rest of the world, do you?
A partir de hoje vou evitar fazer comentários racistas, depreciativos ou estereotipados. Exemplo? Os japoneses são blábláblá, os libaneses são blábláblá, os brasileiros são blábláblá. Embora sejamos marcados por traços importantes das nossas culturas, eh cada um no seu quadrado. Eu não quero ser comparada com – hum – a Carla Perez. Oh, Veridiana is Brazilian just like Carla Perez. Yes, they sure look alike. Not quite. Assim como o Obama nao deve querer estar na mesma bacia do Bush. Ou os austríacos daquele cara que teve filhos com a própria filha. Entende onde o bicho pega?
Shame on you, amigo bebado, shame on you!