
Entrou correndo no apartamento depois de ouvir o telefone aos berros da escada de emergência. Fazia questão de subir de escada para queimar as tortinhas de morango do café-da-tarde da agência. Ofegante, atende:
- Alô!
- Bi, chegou?
- Quem é? (mesmo já sabendo do que se tratava)
- Tavinho. Tudo bem com você?
- Gato (ai, que mania de chamar de gato o brother pela qual não é apaixonada), acabei de chegar, tô com sacolas, guarda-chuva e tudo mais. Posso te ligar em 5?
- Claro.
- Beeeeijo.
Se desfez do guarda-chuva, da sobra do almoço e da pasta do trabalho. Tudo em seu devido lugar. Correu pro banho demorado de pré-encontro à moda antiga. Primeiro encontro. Cinema, jantarzinho, café. Quiçá um vinho no apê. Arrumou o porta-retrato da sala: fotos de família, cachorro. Imagem de alguém sociável com grande paixão pelos seres vivos em geral. Separa a roupa escolhida, sorri para ela, olha no espelho e manda um leve beijinho. Corre pro banheiro. Sabonetinho, óleos de maracujá, creme de raízes da terra, rolou até um ultra-moderno à base de canabis sativa. Oka. Sai bem do banheiro.
Telefone. Trim Trim. Trim Trim.
- Alô?
- Oi, Bi, Tavinho.
- Fala, gato. Desculpa não ter ligado, tô no meio de uma corr...
- Ah, é? Vai sair?
- Não, quer dizer, sim...
- Hum...
- No que posso te ajudar?
- Queria conversar sério com você. E sóbrio.
- Pô, cara, hoje não vai rolar. Já tinha programado de ir lá mesmo.
- Lá onde?
- Reuniãozinha boba.
- Se é boba, fala comigo.
- Olha só, gato (forçando um carioquês para aliviar as duras penas de ser cuzona), eu tenho que ir nessa mesmo.
- Tá. Depois a gente se fala. Você leu meu e-mail?
- Nada, tive que sair o dia todo hoje. Faz assim, amanhã eu leio e te ligo.
- Tá.
- Tá.
- Beijos, Bi.
- Beijos, Lindo.
E correu para a produção artística de uma estrela-to-be.
(To be continued)